Dona Tereza morava sozinha em uma casa simples, com paredes descascadas, um jardim pequeno e um portão de ferro já enferrujado. Tinha 83 anos e vivia com uma aposentadoria modesta, que mal cobria as contas e os remédios. Ainda assim, era conhecida no bairro por algo especial: nunca deixava um pedinte sair de mãos vazias.
Vira e mexe, alguém batia ao portão.
— Dona, tem um pão aí?
E ela sempre tinha. Não era pão fresco, mas pão dormido. Do tipo que endurece depois de um ou dois dias. Ela o comprava em saquinhos no mercado, mais baratos, e o que lhe sobrava, separava para doar. Às vezes, cortava em fatias e aquecia no forno, passava um pouco de margarina, quando tinha, e colocava num saquinho limpo.
Um dia, um vizinho mais jovem comentou:
— Dona Tereza, por que a senhora dá pão velho? Não seria melhor dar um dinheiro ou pão quentinho?
Ela sorriu, com doçura nos olhos.
— Meu filho, se eu esperasse ter pão quente pra doar, talvez nunca doasse. Mas o amor que vai junto com esse pão… esse está sempre fresco.
Eram palavras simples, mas tocaram fundo.
Naquela semana, um menino magrinho bateu à porta. Olhos fundos, pés descalços. Tereza entregou-lhe um pedaço de pão dormido, embrulhado num guardanapo florido.
— Desculpa, é o que a vovó pode te dar hoje.
O menino olhou, cheirou o pão e disse:
— Moça… esse é o melhor pão que já comi.
Tereza sorriu. E chorou. Não de tristeza, mas de uma gratidão que não cabia dentro do peito.
Meses depois, uma campanha no bairro foi iniciada. O menino que antes pedia pão, agora estava na escola. E as pessoas passaram a doar para que Dona Tereza nunca mais tivesse que doar sozinha. O portão enferrujado se tornou símbolo de solidariedade. E, mesmo quando veio a faltar a força em seu corpo, ela nunca deixou faltar o pão.
Porque onde há amor, o pouco se multiplica. E um pão dormido, dado com o coração, alimenta mais do que o estômago — alimenta a alma.
Nem sempre podemos oferecer o melhor do mundo. Mas podemos oferecer o melhor de nós. A generosidade não se mede pelo que damos, mas pelo quanto de amor colocamos no que damos. O que é pouco para muitos, é milagre para quem recebe com fome — e gratidão.
Leilane Castro