REFLEXÃO | O Lado de Lá do Muro

REFLEXÃO | O Lado de Lá do Muro

Dona Elvira era uma mulher de meia-idade, rígida, impaciente e amarga com a vida. Desde que perdera o marido, sentia que o mundo lhe devia algo. E como poucos se importavam com seus dramas silenciosos, ela passou a alimentar uma raiva muda — daqueles que riam, que tinham famílias felizes, que pareciam “viver melhor”.

Seu vizinho era um deles. Silencioso, gentil, um homem simples chamado seu Antônio. Viúvo também, mas de uma paz incomum. Tinha um jardim limpo, pássaros que vinham comer migalhas de pão em sua janela, e um olhar sempre sereno.

Elvira, incomodada com aquela calma, começou a fazer algo que nem ela mesma sabia explicar: passava sacos de lixo por cima do muro e jogava no quintal do vizinho. Era seu modo torto de se livrar do que lhe pesava — lixo da casa, do coração e da alma.

Mas seu Antônio… nunca disse uma palavra.

Toda manhã, recolhia o lixo em silêncio. Separava o que podia reciclar, limpava tudo com paciência e, às vezes, deixava uma flor no lugar. Não porque gostasse da atitude dela, mas porque havia aprendido que amor, às vezes, é também suportar o que vem machucado.

O tempo passou. Um dia, Dona Elvira não apareceu. Nem no quintal, nem no portão, nem nas fofocas de costume. Dias se passaram e nada. Seu Antônio, preocupado, chamou ajuda.

Ela havia caído em casa e estava desidratada. Vivendo sozinha, ninguém tinha percebido. Ninguém… exceto aquele que ela maltratava.

Seu Antônio a acompanhou ao hospital. Foi ele quem levou roupas limpas, quem assinou os papéis, quem avisou os parentes distantes. Quando ela acordou, o rosto enrugado do vizinho estava ali, ao lado dela, com um sorriso doce e cansado.

— Por quê? — ela perguntou, com a voz fraca e os olhos marejados. — Depois de tudo que eu fiz…

Ele segurou sua mão com ternura e respondeu:

— Porque o amor de verdade não espera merecimento. Ele apenas ama. Até quando vem em forma de sacos de lixo por cima do muro.

Dona Elvira chorou. Pela primeira vez em muito tempo. E, naquele choro, foi jogando fora o verdadeiro lixo: a mágoa, a raiva, a solidão disfarçada de dureza.

Às vezes, jogamos no outro aquilo que não queremos encarar em nós. E, quando somos acolhidos mesmo assim, algo dentro de nós se transforma. O amor silencioso é uma força que limpa sem cobrar, suporta sem revidar e, no fim, cura o que parecia não ter cura.

_ Leilane Castro